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Festicalulo 2017

Custou sangue e sacrifício. 

Lembro-me de kotas que se escondiam em tectos falsos ou em tamborões com água para escapar das rusgas dos militares de ambos ao lados do confronto. 

Lembro-me do sofrimento das mães obrigadas a mentir que não tinham filhos para não os ver partir inda imaturos e, se calhar, para nunca mais voltarem. 

Recordo-me da preocupação dos pais, impotentes, inconformados, mas sem armas para travar o curso dos acontecimentos. Vem-me à memória a tristeza que se apossava das famílias quando o filho varão atingisse os 18 anos, hora de partir (in)voluntariamente ou forçadamente para a "vida kwemba". E havia aquelas famílias em que dois ou três rapazes estavam "abrangidos"... 

Sou hoje pai de um jovem de 18 anos e, felizmente, não enfrento aquela tristeza vivida pelos pais de jovens nos idos anos 80 do séc. XX. Eu mesmo, aos 14 anos, estive a fazer recruta semi-voluntária. Se não tivesse o "olhoatento" e "sapar" a tempo para Luanda seria mais um dos desaparecidos, estropiados ou ou desmobilizado e sem meios de subsistência. 

 Em Março de 2002, depois da morte do Jaguar Negro, estive no Lwena a reportar os momentos políticos e sociais que antecederam ao aperto de mãos, na sede da Assembleia Nacional, entre Armando da Cruz Neto e Geraldo Abreu Mwengo Ukwacitembu "Kamorteiro".

Vivi e vi o que custou a paz, pois estive também, como jornalista, em algumas zonas de conflito. Vi estropiados com a vida por um fio. Partilhei roupa do corpo com deslocados e ou regressados das matas. Visitei Ondjiva, Kahama, Kwamato, Môngwa e Xangongu, localidades estropiadas, engessadas e com feridas ainda visíveis. Com feridas ainda sangrentas, canteiros da cidade transformados em cemitérios e poços para o suprimento de água servindo de covas para esconder os mortos dos homens ainda viventes. Visitei Kwitu, cidade que a guerra pós-eleitoral partiu ao meio. 

Na infância e adolescência, dormitei nas matas sob chuva intensa e frio. Fiz caminho entre capim alto e espinhos. Calcorreei os rios Kazondo, Riaha e Sangisa (Libolo), andei a pé dezenas de quilómetros em asfalto que ensaiava a sua quentura em meus pés frágeis e descalços. Enfrentei atalhos espinhosos, fugindo sempre dos homens do "Barbas". Já percorri, em 1989, cerca de cem quilómetros seguidos em três jornadas: Kalulu-Munenga-Pedra Escrita-Mbangu de Kuteka. 

A vila de Kalulu, onde estudava, tinha sido atacada na noite de natal pelos confrades de Kalumbungu. Estava tudo em chamas e os adolescentes, apetecível carne para canhão, nunca eram poupados para engrossar as hostes dos "quebra-pontes e postes", como eram por nós apelidados os insurrectos. 

Em 1984, criança ainda, depois de largas noites nas matas, fora da aldeia e do arimbo, fugindo da guerrilha, refugiámo-nos na sede comunal da Munenga. Um veado inteiro apanhava fumaça para não se estragar a carne. Só a “jinginga” foi servida ao jantar. Nessa mesma noite de Fevereiro, os homens da farda apertadíssima atacaram a sede comunal que era guarnecida por tropas das Fapla e da Swapo. Lembro-me ainda do curativo que um enfermeiro da Swapo fez, na tarde da chegada ao vilarejo, à minha ferida na minha perna que já deitava cheiro. Em madrugada repleta de violência inédita, uma bala levou fios de cabelo do meu primo Naldo, hoje comissário da polícia nacional. O francês que o meu primo já falava salvou-nos do rapto gratuito. Muitos parentes e amigos da família morreram naquela trágica madrugada. Andrajosos, exauridos em tudo, partimos a pé para Samba Karinje, em mais um recuo.

Lembro-me que a minha mãe teve de trabalhar, pela primeira vez, em lavra alheia por comida... 

Aqui chegados, 13 anos depois do calar das armas, reconciliemos as almas. Ainda falta pão em muitos lares. Água e energia eléctrica ainda são um luxo para muitos. Escasseiam ainda os empregos, a saúde e formação de qualidade. Faltam estradas e o trânsito em cidades como Luanda e Lubango é insuportável em horas de ponta. Sei disso. Mas peçamo-los com discernimento, sem entornar o caldo da paz. Peço a todos angolanos a máxima atenção: o caldo fervente alimenta-se com lenhas. A panela está sobre "maswika". Entre "maswika" se colocam as lenhas. Derrubando uma das pedras que suportam a panela, esta se desequilibra e perde-se o caldo. Onde brigam elefantes é o capim que sofre. 

Viva a paz!
 
Luciano Canhanga