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Festicalulo 2017

Testemunhos

Custou sangue e sacrifício. 

Lembro-me de kotas que se escondiam em tectos falsos ou em tamborões com água para escapar das rusgas dos militares de ambos ao lados do confronto. 

Lembro-me do sofrimento das mães obrigadas a mentir que não tinham filhos para não os ver partir inda imaturos e, se calhar, para nunca mais voltarem. 

Recordo-me da preocupação dos pais, impotentes, inconformados, mas sem armas para travar o curso dos acontecimentos. Vem-me à memória a tristeza que se apossava das famílias quando o filho varão atingisse os 18 anos, hora de partir (in)voluntariamente ou forçadamente para a "vida kwemba". E havia aquelas famílias em que dois ou três rapazes estavam "abrangidos"... 

Dizia um Irmão Salesiano que "a Mily não pensa com a cabeça mas com o coração...". Eis a razão pela qual é para mim tão difícil escrever sobre Angola, ver uma e outra vez as fotografias e vídeos... acho que tento evitar as saudades que sofro quando faço isso.

Mas vou tentar fazê-lo, é mesmo um acto de amor. Também a mim me faz bem quando consigo.
Lembro várias cenas das minhas aulas de Geografia, Sociologia e Informática na missão, tanto quanto as aulas de Alfabetização, na missão e nas aldeias, e também cenas das visitas às aldeias, enquanto as crianças tinham aulas.

Vou partilhar algumas, porque "o que não se partilha, perde-se..."

Gostei imenso das aulas de Geografia com os jovens da 10ª classe, na Escola da Missão. Por razões circunstanciais, em Agosto de 2007, um mês depois de ter chegado a Angola, comecei a dar aulas de Geografia. Eu, argentina, dava aulas sobre o Médio Oriente e Sudeste Asiático a alunos angolanos. Mais à vontade estive quando começamos a estudar a unidade da América, e com mais conhecimento de causa, falei do continente que me viu nascer.

Jovens de 16 ou 18 anos, mães que de manhã estavam na lavra e às 17 horas iam à escola, policias, empregados da administração do município, irmãs filhas de Maria Auxiliadora, directores ou professores ou secretários de outras escolas, ou da mesma escola da missão... um variado grupo de homens e mulheres, jovens ou mais velhos eram os meus alunos!!!! Grande desafio!!! E grande coragem!!! Deles e meu!!!! Com muita paciência e muito carinho os alunos aceitaram-me e fizeram-me sentir bem-vinda entre eles. Muito valeram nessas aulas meus os 6 anos de estudos de Relações Internacionais na Universidade de Salta, Argentina. Valeu ainda o carinho deles e meu, o esforço em inculturar-me e estudar os conteúdos dos programas, e o esforço deles por interpretar o meu português e os meus métodos. Com um admirável respeito mútuo, com algumas palavrinhas em kimbundu para alegria deles, com algumas queixas a respeito das dificuldades nas avaliações... enfim conseguimos chegar ao final do ano com toda a matéria dada.

As aulas de Informática foram as mais longas. Praticamente todo o ano que estive em Angola dediquei-me a isso. Foi uma das actividades principais. E se fosse pela escolha dos alunos, teria sido ainda muito mais. Tanta é a sua sede de aprender, e a sua fascinação pela informática, pela tecnologia em geral. Reconhecem bem esse mundo novo que se abre à frente dos seus olhos. Ainda que seja preciso começar com o básico, como pegar no rato, como ligar o computador... Mesmo que se tenha 17 ou 45 anos.

Lembro-me que a primeira aula que tive com eles, acho que duas semanas depois de ter chegado em Angola, comecei com um ditado que eles deveriam copiar em Word. O título do artigo era "Dom Bosco sonhou com Angola"... foi bem emotivo para mim. Também eu havia sonhado com Angola, por isso estava lá.

Os alunos chegavam contentes às aulas de informática, mesmo que às vezes as faltas de energia, algum computador estragado ou... é bom dizê-lo... alguma partida do "Recre" tenham interferido no decurso normal das aulas...

Várias meninas chegavam com seus bebés nas costas, e tentavam arrumá-los melhor na aula de informática, à frente delas, do lado do braço esquerdo, para poder escrever e pegar o rato com maior facilidade. Isto nem sempre era possível. Às vezes chegava mesmo a hora de sujar, ou o bebé estava um bocadinho doente, e a mãe não conseguia assistir às aulas. Sempre que possível, desfrutei muitíssimo de ter eu os bebés enquanto as mães estavam a estudar... Era bom para a mãe, e eu sentia-me tão feliz mimando o bebé!!!

As aulas de Sociologia foram muito boas. Foram aquelas que eu assumi com mais entusiasmo. Sempre tinha gostado da Sociologia, tanto que quando terminei os meus estudos de Ensino Médio, essa foi a carreira escolhida. Mas as circunstâncias (mudança para outra cidade onde não era possível estudar isso) fizeram-me optar pelas Relações Internacionais. Angola ofereceu-me a oportunidade de me encontrar outra vez com a Sociologia. Gostei imenso de falar com os alunos de inculturação, socialização, costumes tradicionais, mitos, valores, metodologia de pesquisa... fiquei impressionada com os excelentes trabalhos práticos que apresentaram em relação a diferentes temas: alambamento (casamento tradicional), globalização, deserção escolar...

Também dei o programa do último trimestre de 2007 aos alunos do último curso. Foi muito interessante. Foi um encontro com a sua cultura, e com os seus modos de estudar, de pesquisar, de ver a vida.

É esta a única escola secundária do município do Libolo, província do Kwanza Sul. Com algo mais de 50 alunos cada turma, são só 2 turmas da 10ª e 11ª classes. O que quer isto dizer? Que a percentagem dos alunos que chegam até estes níveis de estudos é muito baixa.
Sobram as palavras.

Todos os que amamos Calulo, todos os que amamos Angola, África, devemos fazer algo. Comprometermo-nos com as necessidades deles, que são também nossas. Especialmente nós, que não levamos as nossas cadeiras na cabeça ou uma pedra para nos sentarmos a estudar, nós que não nos molhamos na aula quando chovia porque o tecto da nossa sala não era de palha, nós que não perdemos nenhum ano de estudo por falta de professor na nossa aldeia...

* Voluntária na Missão de Calulo no ano 2007